Lembro-me bem do tempo em que nesta altura já estava a fazer recortes das revistas das coisas que queria receber, a fazer várias cartas para o pai natal e pôr debaixo da árvore aquela que tinha ficado melhor escrita, lembro-me de já ter feito a minha árvore e o presépio e passar tardes a contemplá-los, de já ter recebido o calendário de natal que o meu pai me dava sempre, para comer um chocolatinho por cada dia que passasse. Lembro-me de apalpar as prendas, procurar os nomes, ver quais eram as minhas e o que poderiam conter. De ir às compras com a minha mãe, de comprar prendas e aconselhá-la a dar coisas úteis aos meus primos e irmãos. Lembro-me de passear pelas ruas e sorrir ao ver os enfeites. Lembro-me de me sentar à mesa, na noite de 24, e sentir uma enorme felicidade por ter ali comigo as pessoas com quem cresci, que me amam, de sentir aquele conforto, aquele quentinho, de ouvir as anedotas do meu primo, de me rir com ele, de comer o bacalhau delicioso da minha avó e de brindar debaixo dos enfeites que passei uma tarde inteira a colocar.
Este ano está tudo diferente.
Não quero prendas materiais, quero sentimentos que não posso ter. Não toquei na árvore de natal por já não sentir a mesma nostalgia ao fazê-la. O meu pai não me deu nem me vai dar o calendário, porque está longe e nem de mim se lembra. Já não há união de família para que haja troca de prendas entre nós. Já não há sequer enfeites em casa da minha avó, e o natal já nem é lá.
Hoje olho para as cartas que escrevia na altura em que acreditava no pai natal, na altura em que era uma criança e era feliz, e vejo que afinal aquelas cartas não estavam bem escritas, mas recordo com saudade que foram colocadas debaixo da árvore com carinho e pureza de uma criança que acreditava no que hoje vê que é irreal..

Crescemos e passamos a valorizar outras coisas (mais abstractas e menos materiais), especialmente quando todo o cenário a que estávamos habituados se altera.
ResponderEliminarAntes também celebrávamos o Natal em família, todos juntos, primos, tios, avós. Apesar de ser uma pessoa que não aprecia ter a casa cheia, realmente adorava tudo isso nesta altura. No entanto as relações e os relacionamentos alteram-se e/ou acabam-se e de um ano para o outro a felicidade de outrora deixa de existir.
"Não quero prendas materiais, quero sentimentos que não posso ter" - no meu caso, ainda que não seja algo tão específico no que toca a sentimentos (diria mais sensações - não sei, é diferente?), passa-se o mesmo. Cada um tem a sua ideia de felicidade e de fazer os outros felizes e a ideia que os meus pais têm é completamente incompatível com a minha. Passamos o ano todo no limite e, por vezes, quando a vida ultrapassa esse limite, podemos não ter comida da mesa. Não sei se é por isso, mas de alguma forma, para eles, a maneira de nos fazer felizes é comprando algo que não podem comprar durante o resto do ano, algo material num valor mais acrescentado. E tenho sempre problemas com isso, não apenas na consciência e na aceitação, como problemas mais específicos pois esse gasto nessa altura impede-me de realizar outras coisas mais úteis que gostaria de realizar.
Por tudo isso, passei a não gostar muito de celebrar o Natal. Gosto da minha família mas não há aquela vontade de querer passar o Natal com eles (quem diz Natal, diz outras datas festivas) Talvez isto soe ruim. Já nem a árvore de natal faço. No entanto ainda mantenho a esperança de conseguir voltar a apreciar o Natal na forma como acho que deve ser apreciado - na união genuína. E desejo-te o mesmo. :)
Gostei de ler o teu desabafo, se bem que triste... Há pessoas que não conseguem entender que o que queremos não é bens materiais nem sacrifícios para nos darem isso. Queremos apenas aquele bem estar, aquele que a união e a paz nos trazem. Tenho pena de não ser a única a já não sentir o natal da mesma forma, aliás, tenho pena de o natal não trazer felicidade a toda a gente.
EliminarObrigada, desejo-te o mesmo também a ti :)
o NATAL tem de nascer dentro de nós... a inocencia com que o vivenciava-mos em crianças nao se pode deixar morrer nunca... procura bem lá no fundo que quem sabe vais encontrar o «teu» NATAL!
ResponderEliminarVou encontrando apenas em recordações! Porque hoje já não posso viver o mesmo. Obrigada Bubuleta, e feliz natal :)
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